10 dezembro 2010

Destino

Um tema que me foi sugerido por alguém, como outros que aqui estão. Pergunto por vezes, já que assim me obrigo a falar sobre um assunto que não me seja induzido por mim mesmo.
Frases que me ficaram na memória: o destino somos nós que o fazemos, o que é nosso está guardado, não há impossíveis, viver um dia de cada vez, o destino está traçado, é impossível mudar o teu destino.
Afinal o que é o destino? Para mim o destino, é o que ainda não foi, o que ainda não sou, o que ainda não aconteceu. O futuro será portanto o destino. Não acredito que o destino, o futuro já esteja escrito num qualquer papel, numa qualquer caixa e guardado a sete chaves. Já fiz tantos erros na vida, que influênciaram o meu amanhã, que não creio que já estivesse destinado faze-los. Decisões apressadas, repentes, mergulhos de segundos onde não é possível voltar atrás na plataforma da piscina. Saltei e não se pode voltar atrás. Somos o produto das nossas acções. Há que aceitar os erros e os sucessos, e evoluir. Não remeter para o destino, uma forma de desculpa egoista, para as acções falhadas e as conseguidas. Sou realista neste aspecto. Há que aceitar as consequências das minhas acções, e tentar fazer melhor para a próxima.
Saber perder hoje para saber ganhar amanhã. Esta frase colide com a moral vigente, que me remete para a culpa. Sou bombardeado pela sociedade, por vários atavismos morais e dogmas sociais. Existe hoje em dia, um constante fluxo de carga negativa que faz com que o individuo per si, se sinta culpado e apontado a dedo, marginalizado, quando não alcança o sucesso. E aqui o sucesso a que me refiro não é o sucesso merecido e conquistado, mas o sucesso efemero e arrancado a ferros, só porque tem que ser. O sucesso vem com o trabalho e o esforço de cada um. Como diaria Fernando Pessoa, "i know not what tomorrow will bring".
Agora antes de acabar, uma provocação a mim mesmo. Tenho gosto pela astrologia, numerologia, tarot, quiromancia, entre outras. Estou tranquilo, porque ainda tenho mais algumas vidas...

08 dezembro 2010

As Aventuras de Sir Monarch - #8

Enquanto conduzia, sempre as mesmas perguntas na sua cabeça. Sir Monarch não conseguia pensar, raciocinar. Resolve tomar um outro caminho que não para o seu hotel. Segue para Pigalle, Rua Condorcet, número 38, segundo andar. Só com um sentido, a estrada. Estaciona perto da porta, junto ao passeio esquerdo. A porteira abre a porta. As escadas em caracol levam-no ao segundo andar. Tira as luvas pretas, e dá dois toques na porta com a sua bengala. Segundos depois, a porta abre-se.
- Boa noite...
- Bonne nuit...
Do lado de dentro da casa, uma mulher pálida e gélida como o árctico. Cabelo preto e olhos verdes. Vestia um robe de seda chinesa preto, com desenhos de montanhas e lagos dourados. A boca pequena e suave pintada de vermelho sangue reluzente.
- Entra Alphonso. O visitante olha a sua hospedeira nos olhos e baixa-os de seguida. Olha para o chão enquanto anda até encontrar a porta para a sala. Volta-se para trás e olha-a de novo. Os seus olhos cruzam-se, e por segundos o tempo para.
- Toujours belle... sempre bela. Desculpa não ter avisado. Nunca aviso.
- Mon petit garçon... há coisas que nunca mudam. Talvez seja melhor assim. Senta-te. Ia preparar um Amaretto. Fazes-me companhia?
- Claro. Vou só trocar de roupa. O quarto ainda fica no mesmo sítio?
- Desde há pouco, sim, se o destino não o desfez.
Sir Monarch dá passos lentos pelo corredor escuro da casa. Familiariza-se com o cheiro, com o chão macio do tapete que pisa. As paredes amarelas, o cheiro a incenso. O quarto com paredes vermelhas, decorado com mobília preta, de linhas suaves e longas. Por cima da cama um espelho de parede. Troca de roupa. Veste um robe de seda branco. Vai ter com ela.
- O teu Amaretto está em cima da mesa. Serve-te. Sir Monarch puxa de uma cadeira e senta-se.
- Bianca, a tua imagem, desde que te vi pela última vez, nunca me deixou. Nem um único dia. Estás... como sempre. És tu.
- Sim Alphonso. Sou eu. A mesma. Nunca saí daqui. A espera de um dia que não chegava, demorava a chegar. O dia de hoje. O que fizeste nos últimos dois anos? Nem uma carta...
- Ma belle... dias houve em que desejei não viver este dia. Mas a minha vontade não se sobrepôs ao coração. Várias vezes me tentava convencer de que eras feia! Horrível. Não o consegui. A razão, só por si não me faria voltar. Mas tu sim. Tu fizeste-me voltar. Desapareci sim. Para tua defesa. Não iria suportar colocar-te em perigo e perder-te. Agora não te tenho, mas estás aqui, como eu estou.
- Mon petit garçon! Solta uma gargalhada e sorri. Vira-lhe as costas e vai até a janela. Olha a rua e diz.
- Alphonso, as minhas noites são como os meus dias. Negras. Nunca deixei de te amar. Ainda amo. Mas não sei se o posso continuar a fazer. Não sei...
Alphonso levanta-se, caminha até Bianca, que está imóvel a olhar a rua. Abraça-a, sem lhe ver a cara, olhando também a rua. As duas caras encostam-se uma na outra. Bianca chora sem ruído. E um beijo emerge dela, para ele.