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24 maio 2012

Pannjo, the Bartender - #13

Uma frase estúpida, numa porta fechada a cadeado, nas profundezas do metro. "Se és quem eu penso que sejas, vais abrir a porta". Quem pensa, pensei eu. O que estará para lá daquela porta? Talvez nada, somente uma partida que alguém quis fazer. E com um cadeado como se conseguirá abrir sem chave? Inultrapassável.
- Senhor, isto é para si. Uma miúda, com sardas, cabelo preto longo, sapatinhos pretos de verniz e um vestidinho côr de rosa, falava comigo. Com o braço esticado e com a palma da mão virada para cima, dava-me uma chave. "Disseram que é para o senhor."
Peguei na chave, a menina disse-me adeus, e foi-se embora. 
Abri o cadeado, e empurrei a porta. Uma escada íngreme, subi a custo com as mãos nas paredes. Uma porta aberta no cimo. Entrei. Uma sala decorada com candelabros nas paredes brancas. Duas cadeiras. E o "Bolero" de Ravel, como pano de fundo. Uma senhora está de costas junto a um quadro. - Gosta do quadro? Dois homens a jogar as cartas, fumando e bebendo vinho. Sim é realista, respondi. - Real? O que é real? São cores misturadas, sobre uma tela, meu bom homem. Um quadro é um objecto inanimado. É real? Ou será só real porque você existe? Virou-se. Um vestido branco com um decote até ao umbigo, em seda, acompanhado por stilettos pretos, abertos á frente. 
- Ainda bem que apareceu. Não me deve conhecer. Mas conhece alguém que eu também conheço. Alex, sim?
- Mas como conhece essa criança? - Meu bom homem, o Alex é... digamos que meu protegido. Agora... sei quem você é. Um assassino, meu bom homem. Não fique chocado. Não o vou denunciar. Quero que me ajude a procurar o Alex. Não está no sitio onde o encontrou. Preciso da sua ajuda, meu bom homem. 
A minha cabeça anestesiava os pensamentos. Não podia pensar logicamente. Conjugar a minha realidade com esta nova. Tinha que encaixar as peças e ver se alguma coisa fazia sentido. 
- Vá, meu bom homem. Depois, talvez tenha algo para lhe contar. Mas diga-me onde ele está, primeiro. Nada mais tenho para lhe dizer...

27 fevereiro 2012

Pannjo, the Bartender - #12

A minha espera?? Na minha cabeça só tinha um pensamento, pisar o animal! Mas antes que o tentasse ele falou novamente.
- Eu ao contrário de Klalk, digo quem sou e ao que venho. O meu nome é Augus. Sou um Príncipe da Galáxia Lasuz. Esta forma material e inumana é a que mais se assemelha a minha forma real. Perguntas o que estou aqui a fazer. Eu respondo. A minha função aqui neste mundo é tentar perceber-te, estudar-te Pannjo. Não é salvar-te, nem salvar as tuas vitimas. Nem interferir com a tua vida. Sou só um mero observador.
 E fechou a boca, sem dizer mais uma palavra. Eu Pannjo, um demente ser humano que mata sem saber porquê, falo com um sapo e com um ser espiritual... O que dirá o meu psiquiatra deste meu novo conhecido? Não quero saber, agora. Haverá tempo.
Alex, não me sai da cabeça o nome daquele rapazinho. Saí de casa. A pé, com o passo largo. Nem me passava pela cabeça passar pelo bar. Não queria tentar a sorte e, olhar para alguém com um xis na testa. Apanho o metro. Sigo sem destino. Saio e entro das estações sem sentido. Sem regra. Até que me aconteça qualquer coisa. Qualquer coisa, ao acaso. Onde eu não tenha mão do meu destino. Nem dos outros. Fui até uma saída fechada a cadeado, com um autocolante onde se lia: "Se és quem eu penso que sejas, vais abrir a porta"...

29 setembro 2011

Pannjo, the Bartender - #11

Aquele nome não me saia da cabeça... Alex. Passaram-se dois dias, trinta e seis horas e cinquenta e nove segundos, até ao momento em que a vi. De gabardina beje, para fugir a chuva de verão. Comprava flores. Segui-a. Entrou num cemitério. Deixei a moto e seguia a distância de uma corrida. Debruçou-se sobre uma campa e colocou lá as flores. Devagar, aproximei-me dela. Lado a lado olhávamos para baixo. Estava escrito: Pierre Louis Wonhort 1897 - 1982. Perguntei se era um familiar ou um amigo. Disse que nem uma coisa nem outra. Fez-me a mesma pergunta, e a minha resposta foi a mesma, por motivos obscuramente diferentes. Debrucei-me como se fora atar o sapato e agarrei numa pedra. Abri a sua cabeça ao meio só com um golpe. Caiu desamparada sobre a laje de mármore. O sangue começou a escorrer lentamente sobre o branco lácteo. Começou a chover, uma chuva miudinha, que se fez grossa e pesada, num segundo. E por mais uma vez, matei. Não a conhecia, nunca conheço quem mato. 
Na minha cabeça tinha só pensamentos brancos. Peguei na Harley, e mais uma vez segui uma estrada que não conhecia. Dentro da cabeça ecoava... Alex... Alex... Alex... Parei junto a uma bomba de gasolina. Comprei um maço de Lucky Strike, fumei metade do maço sentado na Harley, a olhar para a planície, até que o sol se quisesse esconder. Voltei para casa. Ainda não tinha tirado o casaco, e estava junto a porta do frigorífico. Olhei para o chão e um sapo estava aos meus pés. Que estás aqui a fazer? Como entraste?
- Estava a tua espera Pannjo...

16 junho 2011

Pannjo, the Bartender - #10

De manhã agarrei na minha Harley-Davidson Forty-Eight, e pus-me a estrada. Deixei o meu telefone em casa. Para o bem e para o mal. Parti sem destino. Só eu. Dei por mim, a percorrer ruas da cidade que conhecia, a olhar para os traços da estrada. Para os sinais, para as pessoas, sem entender o que fazia eu ali. Acelerava. Saí da cidade e entrei na "route 66". Tinha o tanque cheio. Parei uma vez na estrada deserta. Só eu e o mundo. Não me apetecia voltar. Deixei a mota, perto da estrada, e pus-me a andar sem destino, na planície. Queria deixar o meu outro eu, onde quer que ele estivesse. Que morresse, se evaporasse como o vapor de um vulcão. Olhei para o relógio. Meia hora, de caminho já. Reparei numa casa, que estava plantada no meio do deserto. Fui até lá. Caminhava, pensando quem poderia ali morar, num ermo sem fim.
Uma casa de madeira, pintada de branco, acabada de  pintar. Com uma cerca, que cercava a casa e a terra. Igual a que estava fora da cerca. Se um jardim ali houvera, não havia sinal dele. Conseguia ouvir a televisão, que estava ligada. Bati a porta, e esta abriu-se. Ninguém respondeu. Entrei. Desenhos animados na televisão. Uma poltrona com alguém sentado. Devagar, levantou-se uma criança. Um rapaz com uns cinco anos. Loiro, de jardineiras e t-shirt vermelha. Aproximou-se de mim até dois passos dele. Olhou para cima, nos meus olhos, com os seu olhos negros. Acenei e disse olá. Perguntei pelos seus pais, se ele estava sozinho. O rapaz aproximou-se de mim, puxou pela manga do meu blusão de cabedal. Abaixei-me e ele sussurrou.me ao ouvido: " O que tu procuras não está nesta casa. Eu já estou morto." Olhou friamente nos meus olhos, e foi-se sentar na poltrona. Sai dali. E quando ia a caminhar novamente na direcção da mota, reparei que o mesmo rapaz estava sentado nela. Alguma coisa já não estava a fazer sentido. Algo me estava a escapar. Antes que pudesse falar com ele, desapareceu depois de olhar novamente para a casa branca. Sem parar consumia alcatrão, ar e vento. Nada fazia sentido. Mas eu, também não fazia sentido. E eu era muito mais real do que aquela criança que me disse estar morta, naquela casa branca. Eu sentia-me morto, mas estava ainda vivo. Um paradoxo constante em mim. Ao menos aquele rapaz de cinco anos sabia a verdade. A minha verdade ainda não a encontrei. Talvez fosse isso a que ele se referisse. Talvez. Falta-me dizer-lhes o nome da criança, as suas ultimas palavras que me disse ao ouvido. " O meu nome é Alex..."

22 maio 2011

Pannjo, the Bartender - #9

Deitei-me na cama. Nu. No chão, a volta da cama, o casaco e o resto. O meu corpo suava. Estava deitado de barriga para cima. Emergia da sonolência para o sono leve, e voltava. Tinha a consciência do meu corpo. Dos sons que fazia. Da minha natureza animal. Todas as luzes apagadas. Por entre pedaços de sonhos breves, tentava ver qualquer coisa no escuro. Como um cego. Acendi um cigarro. Sentei-me na cama. Descalço, vou até ao sofá e sento-me. Fumo, expiro e inspiro. São 3:21. Agarro no telefone e escrevo uma mensagem. Ás 3:56, ouço dois toques na porta. Nu, levanto-me do sofá. Sem luz. Vou até a porta e rodo a chave. O meu coração aumenta o ritmo. A adrenalina está a fazer efeito. Ela entra. Nem uma palavra. Acendo uma vela que está mesmo atrás da porta. Junto a mim, a dois passos, ela olha-me. Quase que a oiço respirar. Tiro-lhe a mala e o resto da roupa. O casaco. A camisa. As calças. As botas. As meias. Pego na sua mão e puxo-a contra o meu peito. O seu corpo suave e perfumado, enebria-me. Cheiro o seu pescoço, enquanto ela percorre o meu corpo com as mãos. Sinto o seus seios debaixo do soutien preto. Ouvimo-nos os dois agora. Ela arranha as minhas costas suavemente. Eu piso os seus pés. E subo para os tornozelos, para os sentir. Roço-me nela. Os ossos das coxas saídos, chocam com o meu corpo. E a carne dos dois, dança com lentidão. Ela trinca-me a orelha. Enfiando de seguida a língua dentro dela. Até se fartar. E já teso, ela passa a mão. Agarra e põe na boca. E consola-se com o meu corpo, até me fazer vir. Levanta-se e beija-me, lenta e sabiamente. Agora eu. Sento-a no sofá. Mesmo na borda. Afastei as pernas, uma da outra. Cheirei o ventre. Mordi a sua pele. E percorri com a língua as suas coxas. Com o indicador esquerdo, afastei a tanga preta. Senti o cheiro mais intenso. Abri. A minha língua, devagar e suavemente passeava pelo Éden. Sentia os seus arrepios, e alterações na respiração. E os meus lábios beijaram os seus lábios. Entrei. Molhou-me a boca. Mordisquei o seu pequeno. E com a ponta da língua, fustiguei-o. 
Ela levantou-se. Sentei-me. Sentou-se em cima de mim. Entrei nela. E freneticamente fodemos os dois, como animais. O único momento onde eu, sou eu. E ela é ela.

08 maio 2011

Pannjo, the Bartender - #8

Depois da matança cheguei a casa. Omito as aparições de Klalk, estranhamente silenciosas e furtivas. Deitei-me na cama, depois de tirar o casaco. No bolso esquerdo, do lado de fora, guardei a faca de matador. Aos meus pés o casaco. Eu sentia o sangue molhado e húmido, na pele. Que trespassava da minha camisa. A casa sem luz. Fria. E ali, deitado, vestido e acordado, desejava que aquele sangue me amasse. E eu o amasse também. Pus-me de ajoelhado na cama, e executei um ritual animal, que me transcendeu, fechei os olhos. O prazer de ter aquele momento em mim, fez-me exultar todos os sentidos. O cheiro da casa fria, o sangue na minha pele, os sapatos ainda calçados. A minha mão no meu caralho, que vigorosamente queria ejacular. E na minha cabeça passavam todos os momentos da morte. Do principio ao fim. Até morrer também. Cai, exausto na cama. Por cima dos pedaços de mim. O sangue e eu, a vida e a morte. Ainda deitado, tirei um cigarro do bolso do meu casaco, que estava mesmo a minha frente. Acendi e fumei, sem remorsos. Tinha as mãos vermelhas e brancas, de sangue e de mim. E o cheiro, do momento, entrou pelas minhas narinas, e foi alojar-se no meu cérebro. Naquele lugar onde guardo os cheiros. Fiquei a saber que o sangue tem cheiro. E é doce. Sem música, sem qualquer tipo de som ou ruído que o fizesse prever, a minha mão esquerda, lentamente dançava. Uma construção mental de uma sinfonia triunfal para o momento. E não me detive, apreciei o momento. A minha mão docemente a pairar no ar, desenlaçando novelos invisíveis e pintando sons que não ouvia. Parei. Passei a mão pelo cabelo, sentei-me na cama. Olhei-me ao espelho. Apaguei o cigarro no cinzeiro.
Tudo estava igual. A casa estava como a tinha deixado antes de sair. Um buraco frio, escuro e húmido sem janelas, que me abrigava da luz.

30 abril 2011

Pannjo, the Bartender - #7

Com as duas criaturas a minha frente, só tinha que saber como as matar. O instinto de matar, terminar a vida, fazia-me correr a adrenalina pelo corpo. Como um líquido azul escuro se apoderasse de de todo o meu ser. Ossos, carne, pele. Um estado de imersão fatal. Uma adrenalina de loucura permitida até ao limite de mim. Não foi difícil saber as suas moradas pelos números dos cartões de crédito com que pagaram as contas. Primeiro ele. Morava num apartamento na cidade. Prédios altos. 78º andar. Fui pelas escadas. A loucura de subir as escadas, parecia-me nada, comparado com o que iria fazer dentro de pouco tempo. Subia cada vez mais cansado, pelo meu corpo dorido. Pela minha cabeça vazia de ideias cancerosas e vorazes de sangue.
Abri a porta corta fogo das escadas que dava para o 78º andar. Parei por segundos, para respirar. Encostei-me a porta e bati. Sete toques. O inquilino abriu a porta. Dei-lhe um soco que o fez desmaiar. Agora, o resto. Atei-o a uma cadeira. Lembro-me que estávamos na sala, com uma vista escura e brilhante da cidade. Ele acordou e perguntou-me quem eu era. Achei que lhe devia pelo menos, contar a verdade. Depois de me ouvir e implorar que não o matasse, os seus gritos incomodavam os meus ouvidos habituados ao silêncio da minha fria casa. Tirei-lhe o cinto e amordacei-o. pela minha cabeça as ideias cancerosas e vorazes de sangue, repetiam-se. E o vazio era total. Fumei um cigarro, um cigarro que lhe dava mais tempo de vida. Que me acalmava a alma e o espírito. Decidi que não iria ser planeado. Que iria vaguear pela casa até encontrar a inspiração e os objectos necessários, para lhe tirar a vida. Música. Tinha que ter música. Pus um CD do Frank Sinatra. Sempre conferia solenidade ao acto. Comecei por uma faca da cozinha, fui ao W.C e agarrei no secador. Abri uma garrafa de vinho tinto, bom vinho... Com o cigarro ao canto da boca, o meu passeio continuava. Na dispensa encontrei detergente para lavar tapetes. Satisfeito com a escolha, voltei para junto dele. Espetei-lhe a faca no abdómen. Retorcia-se com dores. Despejei o detergente pelo seu corpo. Liguei o secador. Encostei-o na nuca, até queimar. Estava quase a passar a linha do real para o insano. Tirei a faca do corpo e numa dança, lenta ao som da música, comecei. Golpes em todo o seu corpo, sem olhar onde o atingia. Uma estocada fatal no coração, foi como terminou. Suava. Fui embora como vim. Mas com mais um pecado na alma. Sem uma parte de mim, que ficou naquele 78º andar.

17 abril 2011

Pannjo, the Bartender - #6

Adormeci. Sonhei um sonho. Pisava a relva verde de um paraíso. Riachos de água fresca e árvores verdes, muito verdes. Mas não ouvia nada. Nem a minha própria voz ouvia, quando comecei a gritar insanamente. A correr descalço, nú, por um paraíso sem som. Acordei enquanto gritava mudamente. Fui a correr para o espelho e gritei. Gritei para me ver gritar. Já não aguentava ouvir-me berrar pela casa e pensar porque no sonho não o conseguia. Tomei um banho frio. De noite ainda. Acendi incenso, que coloquei no chão perto da cama. Assumi a posição de lótus e comecei a meditar. Sobre um tapete preto de algodão. Afastava-me de todo o mal que eu sentia que era. Ia para o vácuo. Para o éter. Para um lugar vazio de tudo. A minha mente vagueava no escuro, no preto distante e imenso. Ali era onde me sentia bem. Tudo termina quando abria os olhos. Tudo recomeça quando saio a rua. quando vou trabalhar. Nesse lugar onde as vitimas aparecem desejando a morte. Não o desejam, mas é como se o fizessem. Eu não o consigo evitar. Nessa manhã cheguei ao bar como sempre ainda sem o sol ter nascido. A minha doença branca piorava. Tinha tonturas, e dores de cabeça frequentes. a minha visão começou a ficar mais a preto e branco. Algumas cores ainda as via, mas mais esbatidas. Nesse dia entrou no bar um grande grupo de amigos. Uma festa. Não sabia quem eram, soube-o depois. Fixei o grupo atentamente. Duas pessoas em lados opostos da mesa estavam marcadas com o x na testa. Nunca tinha visto duas marcas em simultâneo. Fez-me pensar isso. Fiquei pouco confortável como inesperado. Como o iria fazer? Mata-los ao mesmo tempo? Tinha que o fazer assim? Podia matar um agora e o outro amanhã? O que acontece se não o fizer? E se o fizer? O destino e eu seremos as testemunhas do que se passará a seguir...

25 março 2011

Pannjo, the Bartender - #5

Ainda estava a dormir. Clarice entrou. A porta acordou-me. Ela tem a chave e aparece quando precisa. Quando lhe apetece. Três e meia da manhã. Fui a mala tirar as cordas. Ficou nua. Amarrei-lhe as mãos e desci até aos tornozelos. Outro nó. As mãos e os braços atrás das costas. As pernas flectidas para trás. Estava deitada na cama. Levantei-a e, deitei-a no chão frio de tábuas de madeira envernizada. Coloquei-lhe uma venda de seda branca. As luzes estavam todas apagadas. Todas, excepto uma. De cor purpura. A pele dela resplandecia de tons purpura, claros e escuros. Sombras no corpo dela. Estava imóvel. Não se mexia. Coloquei a mascara de Vendetta. Vesti as calças de cabedal pretas, descalço. Olhei para o espelho. Como queria estar. Ela continuava amarrada, para sua felicidade. Nem um som, uma palavra. Acendi um cigarro. Sentei-me numa cadeira. Olhava para ela, ali deitada. Ela não me olhava, mas sentia-me. Sentia-me, só como eu faço sentir. Era isso que ela buscava. Ela sabia. Completamente indefesa, diante de um ser capaz de matar. Nunca lhe falei das minhas mortes. Mas ela sentia isso em mim. E desejava sentir essa adrenalina, de não saber se iria morrer. Por isso ela volta. Para sentir. O que só eu a fazia sentir. Viva. E eu morto por dentro, fazia o que devia fazer. Agarrei nas cordas e puxei, até ela gemer de dor. Ela não gritava. Nunca gritou. Porque não o fazia, não sei. Talvez nunca o saiba. Nunca lhe irei perguntar. Falamos pouco.
Abri uma garrafa de Amaretto, e despejei-a pelo seu corpo. Tirei-lhe as cordas. Estavam marcadas no corpo dela. Vestiu-se. Olhou-me e colocou os olhos no chão. Nos meus pés. Foi-se embora, quase que nascia o sol. Tirei a máscara. Deitei-me de novo. Novamente a mesma imagem da janela. Tentava ver a Clarice, por ela. Imaginar o que sentia. O que realmente sentia. Parei de pensar, quando realizei que olhava uma parede cinzenta e escura.

19 março 2011

Pannjo, the Bartender - #4

Segundo dia de jejum. Fome. Levanto-me da cama. Parece que sonhei com alguém. Vou até a cozinha e agarro numa faca pequena, afiada. Visto o meu fato de treino e os ténis. A gabardina cinzenta, e ponho os óculos escuros. Subo as escadas que dão para as traseiras. O sol quase que aparece. Cheira a humidade. Apetece-me matar. Pela primeira vez, não é uma coisa natural. Não encontrei ninguém com um x na testa, que me levasse a querer matar. É contra natura, pela primeira vez. Como deixar de viver.Olho para os meus ténis vermelhos que contrastam no preto do alcatrão da estrada. Custaria matar alguém assim sem marcação? Um cão passava por mim. Chamei-o. Cortei-lhe a garganta, depois de duas festas na cabeça, Nunca tinha morto um animal irracional. Próximo passo. Um ser humano. Nesta cidade não é difícil encontrar alguém para esfaquear. O problema seriam as testemunhas. Onde é que poderia ter um pouco de privacidade, para matar alguém? Passava por um clube de strip, entrei. Paguei uma cabina. Ela estava completamente nua. Tinha a cona rapada. Morena. Ainda se viam as marcas do bikini. Os mamilos eram carnudos e cor de rosa. Tinha um cabelo dourado, preso atrás. Ondulava a minha frente. Olhava para os seus pés. As unhas pintadas de vermelho. Os saltos altos deixavam marcas na alcatifa. Tocava-me com as mãos, roçava-se em mim. Desejava-a. Estava cheio de tesão que quase me vinha. Sentou-se em cima de mim. cravei-lhe a faca directamente no coração. Não olhou para mim. Estava morta. Não senti nada. Fui embora. Sentia-me nas nuvens. Fui para casa. Não fui trabalhar. Ser dono de um bar tem coisas boas e coisas más. No meu caso mais boas do que más.
Estou em casa. Na casa sem janelas. Sem tempo. Só o espaço. O tempo só o vejo pelos meus olhos. E não sei se esse tempo é real. Há outros tempos? Eu sou o meu espaço. Nada mais é real.

12 março 2011

Pannjo, the Bartender - #3

Levantei-me cedo. O sol nascia. Fui até a igreja. Ouvi a missa. O Padre, falou de nosso Senhor. De um episódio em particular. Das Bodas de Canã. O primeiro sinal, de Jesus como filho de Deus. Transformou água em vinho, quando este tinha acabado. E a oratória seguiu para os princípios do casamento e da unidade da família. Há coisas que me ultrapassam a compreensão, mas eu creio. Creio Nele. Acabou a missa. A igreja estava fria. Como todas as igrejas são. E tem que ser. Tempo de me confessar. O Padre é sempre o mesmo. As penitências e as confissões, as mesmas também. Já não me confessava a três meses. Duas mortes. Não comer durante dois dias e rezar uma hora por dia,ao deitar. Jejuar já não é segredo para mim. Tenho uma maior perspectiva da minha realidade. Da minha consciência e dos meus pecados. As mortes. Ontem sucedeu-me uma coisa curiosa. Estava sozinho em casa. Acabara de rezar. Perto de uma das janelas, uma sombra, longe. Ouvi uma voz. Essa voz falou: "Virei todos os dias, antes de te deitares. Eu sou Klalk. Não me perguntes quem sou, de onde venho ou o que sou. Deixa-me apenas ajudar-te." E da mesma maneira que apareceu, desapareceu. Comecei a pensar nas pessoas que matei. Quem poderá ser? Eu sou um caso clínico, de diversas doenças psiquiátricas. Telefonei para o meu psiquiatra. Uma alucinação disse. Pode ser. O primeiro dia de jejum. Pode ser. Imaginação de uma cabeça cansada de matar, e por consequência de viver. Deito-me na cama bêbedo de fome. Penso que estou a ficar louco. Penso nas pessoas que matei. Penso sempre que me deito. Olho para a janela. Da cama só vejo o céu. A janela que não existe.

02 março 2011

Pannjo, the Bartender - #2

Os copos são os mesmos, as luzes, as cadeiras. A bebedeira começa. Todos os que entram no bar entram para beber e para arranjar uma melhor companhia do que tinham quando entraram. Nem que seja a deles mesmos, já bêbedos. E porquê, pergunto eu, não consigo ser como eles? Não sei. E como sou diferente dou por mim a tentar não pensar neles. Tenho aquela mania de matar. Hoje matei uma pessoa. Vou começar pelo principio. O bar estava cheio de gente. Deviam ser umas dez para as três da manhã. Tinha ido fumar um cigarro nas traseiras do bar. Para um carro perto de mim. O vidro abre-se. Um homem. A testa dele tinha um X marcado. Eu já nem tento perceber. Há bastante tempo que deixei de o fazer. Ele pediu-me um cigarro e lume. A noite estava escura. Sem as luzes da cidade lá ao longe. Sem lua cheia para a iluminar. Um murro bem assente. Desmaiou. conduzi o carro até a beira do rio. Vinte quilómetros. E agora? Uma dúvida que sempre tenho quando vou matar alguém. Como o fazer. O tipo ainda estava desmaiado. E eu com pouco tempo. E sem como voltar ao bar. Mas isso nem me passou pela cabeça. Ok, vou incendiar o carro. Fácil. Dei-lhe o cigarro e lume. Explodiu. Ver um carro explodir e todo aquele fogo foi uma nova experiência. Não costumo usar métodos "normais" para matar pessoas. Um dia conto. Regressar. Apanhei boleia de um camionista que vinha de este. Estava feito. menos um X. A noite continuou, como sempre. As mesmas putas, os chulos, as virgens e os cornos. As mesmas bebidas. A mesma conversa de sempre. Mas a minha mente estava na beira do rio. No carro em chamas numa noite fria e escura.
Costumo ficar com uma recordação de cada pessoa que mato. Gosto de me lembrar fisicamente deles. Uma ironia. Deste último fiquei com um CD que tinha no carro. A música era a mesma de quando o vidro se abriu, e o vi. "Always on my Mind" do Elvis. E agora que estou em casa, com uma cerveja na mão, ouço essa música. O escuro acalma-me. Esta música também. No total já matei 324 pessoas. Espero um dia encontrar a razão. De manhã tenho que me ir confessar. Sim sou um homem de fé. Acredito em Deus. E no entanto cometo o mais vil pecado mortal. Quem sou eu? Pannjo. Raakesh Pannjo.

26 fevereiro 2011

Pannjo, the Bartender - #1

Triste a dança da noite anterior. Já nem me lembro do nome dela. Depois da inevitável queca e do copo de leite da praxe que bebei na cozinha gélida, fui embora. Dormi duas horas. Tempo suficiente para abrir e fechar os olhos. Acordei com o sabor do leite, dos cigarros na boca. Fui ao frigorífico e abri uma lata de cerveja, gélida. Igual á cozinha dela. Hum.. álcool. Podemos dizer que sou um alcoólico. Bebo cerveja em casa e bebidas brancas no bar. Privilégios da função. Bom devem estar a pensar quem sou eu. O meu nome é Pannjo. Raakesh Pannjo. Um nome estranho para uma pessoa normal. Pelo menos é o que o meu psiquiatra me diz, que sou normal. Para além de ser alcoólico, o meu psiquiatra tem bastante trabalho com as minhas outras "doenças". Uma delas a mais benigna é a Leucofobia. Medo da cor branco. Não sabia porque tinha ataques de ansiedade em certas ocasiões. Por isso trabalho à noite e durmo de dia. Nada que não consiga ultrapassar com esforço. Toda a minha vida fugi do branco e não sabia porque. Tinha que começar as consultas para vir a descobrir esta doença estúpida. E as outras. Depois das consultas apareceram outras doenças. Não que, não as tivesse. Estavam adormecidas na minha mente. Mato pessoas de quando em vez. Não tem uma ordem espacio-temporal especifica. Nem um porque, uma causa. Mato e pronto. O meu psiquiatra diz que é uma forma de me manter vivo. De me sentir vivo. Já me sinto vivo, sem matar, isto é confuso para mim. Mato normalmente clientes que vão ao bar. Como os mato? Para mim é indiferente desde que morram. Há qualquer coisa neles que me fazem desejar a sua morte,e concluir o processo. Por vezes sei os sues nomes. Outras vezes, não. Na minha mente aparece qualquer coisa como um alarme que me faz marcar as suas testas com um X.